O Crescimento da Alma – R. Crosbie
(Do relatório estenográfico de uma palestra de Robert Crosbie.)
Durante muitos e muitos séculos, o homem tem vivido neste mundo ocidental sem nenhuma compreensão de sua própria natureza e sem nenhuma ideia de sua real responsabilidade, porque lhe foi ensinado, em maior ou menor grau, que ele é um ser criado e que qualquer Alma que ele possa ter lhe foi doada pelo Criador. Por um lado, foi-lhe dado o medo e, por outro, a promessa de recompensa pelo que pode ser chamado de boa conduta. Os antigos, no entanto, tinham uma ideia diferente de Alma e consideravam o homem não como uma criatura, mas como um criador, com o poder de tornar seus instrumentos mais bem ajustados e com controle e orientação sobre os eventos de sua vida. Eles sustentavam que todos os seres nascem da mesma Fonte ilimitada e onipresente, que é a raiz, a essência e a causa – o Espírito Uno, a Consciência Una, o Poder Uno, para crescer, sem o qual, em sua raiz, não existe forma, seja ela elevada ou baixa.
Assim, a Teosofia ensina que por trás do homem e por trás de todos os seres está a parte imortal, conhecida por nós como Espírito. Essa parte imortal é o poder que move; essa parte imortal é o que requer experiência. Essa parte imortal fornece todos os poderes, e nela está oculta ou inerente a lei da expansão. O poder de perceber, de agir e de crescer está latente em toda forma. Qualquer que possa ser a natureza dessa forma, e por mais baixa que esteja em nossas percepções, devemos saber que ela não poderia ter existência não fosse pela Fonte Una, o Poder Uno, a Vida Una dentro dela, que causa seu crescimento por meio da percepção de coisas externas e contatos externos. O verdadeiro significado de evolução é o desdobramento de dentro para fora. É por meio da aquisição de conhecimento obtido pela experiência que um desejo maior por um instrumento melhor desponta para a percepção e, então, a Alma – de qualquer condição – segue em frente.
Mesmo no reino mineral há formas de muitos tipos com diferentes qualidades. O Espírito está dentro de cada forma – cada expressão indicando um certo grau de inteligência, e a inteligência de um tipo difere da inteligência de outro. Essa inteligência foi adquirida, mas lembremo-nos de que a raiz de todo ganho em cada plano do ser é o poder de perceber, o poder de agir e o poder de sentir as reações. No reino seguinte, o vegetal, esse poder se aproxima de uma expressão maior. Ele mostra muito claramente uma estrutura diferente e, nos graus mais elevados, até mesmo os rudimentos de um sistema nervoso. Os muitos tipos diferentes de expressão nesse reino representam um tipo diferente de inteligência. Cada flor, cada planta, cada árvore é uma Alma em embrião. No reino animal, encontramos formas que expressam certas qualidades adquiridas por meio da observação e da experiência, através de impulsos certos ou errados, porque nesse reino há formas inimigas da humanidade, bem como aquelas que são benéficas.
Olhando agora para o reino humano, encontramos algo das mesmas qualidades pertencentes aos três reinos inferiores. Existem seres com a percepção estática e imóvel do mineral, com uma pequena esfera de percepção e uma esfera de ação igualmente pequena. Outros são de caráter vegetativo em sua atitude mental. Depois, há aqueles de inteligência mais elevada, mente mais aberta, percepção espiritual mais desvelada. Todos esses são progressos da Alma. Se, como estamos agora, tendo entrado em contato com muitos tipos diferentes de pensamento e religião em nossa busca por uma explicação sobre a natureza do homem, sua condição atual e seu destino, estivermos preparados para considerar qualquer questão com base em seus próprios méritos, independentemente de quaisquer preconceitos ou predileções que possamos ter, nossas Almas estão em processo de crescimento adicional. O verdadeiro entendimento requer uma mente aberta; requer que a crença e o preconceito sejam totalmente eliminados da mente e substituídos por um conhecimento preciso e íntimo da verdade evidente, antes que a Alma possa progredir de suas limitações atuais para um ambiente mais amplo e profundo, para uma gama mais ampla de pensamentos e um entendimento mais profundo. O poder da Alma é o verdadeiro conhecimento, pura e simplesmente. Até mesmo o falso conhecimento pertence à Alma, mas não é de natureza espiritual.
Agora podemos ver a necessidade de fazer uma distinção entre Alma e Espírito. São Paulo faz essa distinção no Novo Testamento, mas ela se perdeu nas religiões ortodoxas porque qualquer ideia de um Deus externo destrói toda a ideia de Espírito. É o Espírito que produz a forma do mineral, do reino vegetal, do animal e da existência física humana; é o mesmo Poder perceptivo, que se tornou mais elevado com uma Alma que existe muito acima das coisas materiais, que passou por todas as nossas experiências atuais e passou para planos mais elevados de existência, levando o conhecimento adiante sem interrupção. O Espírito no homem é a parte real dele. Todo o resto é devido a externalidades e impermanências. Tudo o que pode ser mantido é o conhecimento que ele adquire, e somente esse é o conhecimento que procede e está relacionado à sua própria percepção espiritual. O Percebedor é o Real no homem. Isso não é a Alma. É o Espírito. Depois, há as aquisições de conhecimento, de percepção, de compreensão e de sabedoria que o Espírito assimila para si mesmo; tudo o que percebemos, toda experiência pela qual passamos, todo o conhecimento que podemos adquirir, não é o Espírito. É o Espírito que é o Conhecedor; as coisas conhecidas são a Alma. O Espírito é o que é o Vidente, não o que é visto. O Espírito está na raiz, mas a observação e a experiência nos dão uma percepção cada vez maior do Espírito que somos. A Alma é a percepção cada vez maior da Realidade do Espírito.
Qualquer tipo de experiência é Alma, mesmo que seja embrionária, antes de atingir o estágio de autoconsciência; isto é, Ela não conhece a si mesma e não consegue distinguir entre si mesma e sua percepção adquirida. Os reinos inferiores não têm a consciência da Alma, e é isso que o homem tem e que o torna diferente dos reinos inferiores, onde Ela está apenas latente. Nós, como homens, podemos nos distanciar de nós mesmos e criticar nossas próprias ações, nossas ações em relação aos outros, nossas palavras, nossos princípios, nossa natureza ou qualquer outra coisa. É evidente que, se conseguirmos fazer isso, essas coisas não são nós mesmos. Podemos criticar aquilo que nos pertence. Nada que nos pertença é, na realidade, nós mesmos. É nossa aquisição. Portanto, olhando para a Alma como um meio, uma base e um grau de conhecimento adquirido por observação e experiência, podemos ver por que nos encontramos em nossa posição atual. Adquirimos conhecimento por meio de formas, mas todas as formas se deterioram. Essa forma que possuímos agora teve um começo e deve ter um fim; e com o tempo, voltará para os reinos dos quais foi retirada. Nós não somos essa forma. Tampouco somos as ideias que tivemos, temos ou teremos. Nós somos os detentores das idéias. Todas as concepções mentais de nós mesmos podem ser descartadas. Não somos a mente que podemos mudar. Somos aquilo que continuamente assume outra posição e faz outra evolução. Assim, ao percebermos tudo o que não é Espírito, podemos conceber e compreender o Espírito.
Na realidade, não há começo nem fim para nós. Não há começo para o poder de perceber, o poder de crescer. Ele sempre foi, é e sempre será. O crescimento da Alma não é uma coisa material; é um crescimento na percepção, no conhecimento, na realização da parte espiritual do homem. As lutas pelas quais passamos são todas autoinflingidas por causa da ignorância de nossa própria natureza devido aos falsos ensinamentos transmitidos a nós, aceitos e mantidos por nós. Supomos que somos apenas nossos corpos; que algum ser nos deu uma Alma; que quando o corpo morre, a Alma volta para o Deus que a deu; que a vida é uma doação; que não somos responsáveis por nossa vinda à vida, por nossas capacidades ou incapacidades ou entornos. Gostamos de fechar nossos olhos mentais. Tentamos esquecer os grandes fatos da existência. Tentamos viver no presente e em nossos desejos e prazeres, enquanto procuramos evitar os males que tão fartamente merecemos. Se a vida fosse apenas isso, a única solução possível seria o suicídio e o egoísmo. Mas não podemos, de fato, pensar em uma época em que não estaremos sempre “presentes”, sob quaisquer condições. E como sempre trabalhamos com os outros, afetando-os para o bem e para o mal, devemos, como seres espirituais, fazer a restituição em todos os sentidos. Ninguém pode fazer isso por nós – nem mesmo aqueles grandes Seres, nossos Irmãos Mais Velhos, que nos conhecem, que consideraram nossa ignorância e nossa falta de consideração e que, de tempos em tempos, vêm nos despertar. Nenhum salvador de qualquer tipo pode salvar o mundo. A humanidade precisa salvar a si mesma.
Em meio à humanidade, há muitas e muitas classes. Não nascemos “livres e iguais”. Não somos da mesma espécie. Somos iguais em nossa natureza, mas diferimos muito em grau. Podemos ser os mais atrasados dessas classes, que existiram em muitas vidas com Aqueles que estão muito, muito acima de nós e a quem não estávamos ouvindo. Tendo ouvidos para ouvir, não ouvimos; e tendo entendimento, não quisemos compreender. Se tivéssemos ouvido e compreendido, já teríamos alcançado o estágio desses Seres. Eles são Almas que evoluíram para um escopo universal. Eles sabem que os poderes que desenvolveram no homem são apenas latentes, mas o único que pode concretizar a grande perfeição – para concluir a tarefa estabelecida – é o próprio homem.
Tudo o que Eles podem fazer é despertar no homem o senso de sua própria natureza, para que ele mesmo tome providências; somente ele pode fazer o que é necessário ser feito. Percebendo a integridade de cada Alma, as leis que operam em todas elas, Eles sabem que não podem mudar o curso para o homem; Eles não podem interferir. Tendo suas Almas crescido até as alturas da compreensão e da sabedoria, Eles podem ajudar os outros a ver; Eles podem dizer aos homens que esse caminho está aberto para eles; Podem mostrar o mesmo caminho que os Grandes sempre trilharam.
ROBERT CROSBIE
“Theosophy” vol. X, pág. 164