O que é a Verdade – H.P. Blavatsky
A Verdade é a Voz da Natureza e do Tempo…
A Verdade é um monitor surpreendente dentro de nós.
Não há nada sem ela, ela vem das estrelas,
O Sol dourado, e toda brisa que sopra …
THOMPSON BACON
… O Sol imortal da Verdade Justa
Às vezes está escondida nas nuvens; não que a sua luz
Seja em si mesma defeituosa, mas escurecida.
Por meu fraco preconceito, fé imperfeita
E todas as mil causas que obstruem
O crescimento da bondade …
HANNAH MORE
O que é a Verdade?” perguntou Pilates a alguém que, se as afirmações da igreja cristã forem mesmo que aproximadamente corretas, deveria saber. Mas Ele permaneceu em silêncio. E a verdade que Ele não divulgou, permaneceu não revelada, tanto para os seus seguidores posteriores, como para o governador romano. O silêncio de Jesus, contudo, nesta e em outras ocasiões, não impede seus atuais seguidores de agirem como se tivessem recebido a própria Verdade suprema e absoluta; e de ignorarem o fato de que só lhes haviam sido dadas Palavras de Sabedoria que continham uma parte da verdade, ela própria oculta em parábolas e em provérbios velados, embora belos. (1)
Essa política levou gradualmente ao dogmatismo e à asseveração. Dogmatismo nas igrejas, dogmatismo na ciência, dogmatismo em toda parte. As verdades possíveis, percebidas de forma vaga no mundo da abstração, como aquelas inferidas da observação e da experiência no mundo da matéria, são impostas às multidões profanas, demasiadamente ocupadas para pensar por si mesmas, sob a forma de revelação divina e autoridade científica. Mas a mesma questão permanece em aberto desde os dias de Sócrates e Pilatos até a nossa era de negação em massa: existe algo como a Verdade absoluta nas mãos de um grupo ou de um homem? A razão responde: “não pode existir”. Não há lugar para a Verdade absoluta sobre qualquer assunto que seja, em um mundo tão finito e condicionado como o próprio homem. Mas há verdades relativas, e temos que fazer o melhor que pudermos com elas.
__________________
(1) Jesus diz aos “Doze” – ” A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas”, etc. (Marcos iv. 11.)
Em todas as épocas, houve sábios que dominaram Verdades absolutas e, ainda assim, só puderam ensinar verdades relativas. Pois ninguém ainda, nascido de uma mulher mortal em nossa Raça, tem, ou poderia ter dado a verdade inteira e final a outro homem, pois cada um de nós tem de encontrar esse conhecimento final (para ele) em si mesmo. Como não há como duas mentes serem absolutamente iguais, cada uma tem de receber a suprema iluminação por meio de si mesma, de acordo com sua capacidade, e de nenhuma luz humana. O mais elevado Adepto vivo pode revelar da Verdade Universal somente o quanto a mente sobre a qual Ele a está impressionando pode assimilar, e nada mais. Tot homines, quot sententiae – é um truísmo imortal. O Sol é um só, mas seus raios são inumeráveis; e os efeitos produzidos são benéficos ou maléficos, de acordo com a natureza e constituição dos objetos sobre os quais brilham. A polaridade é universal, mas o polarizador está em nossa própria consciência. Na proporção em que a nossa consciência se eleva em direção à Verdade absoluta, nós homens, a assimilamos de modo mais ou menos absoluto. Mas a consciência do homem, ademais, é apenas o girassol da Terra. Ansiando pelo raio quente, a planta só pode se voltar para o Sol e se mover em círculos, seguindo o curso do astro inalcançável: suas raízes o mantêm presa ao solo, e metade de sua vida é passada na sombra …
Ainda assim, cada um de nós pode alcançar relativamente o Sol da Verdade, mesmo nesta Terra, e assimilar seus raios mais quentes e diretos, por mais diferenciados que possam se tornar após sua longa jornada através das partículas físicas no espaço. Para conseguir isso, há dois métodos. No plano físico, podemos usar o nosso polariscópio mental: e, analisando as propriedades de cada raio, escolher o mais puro. No plano da espiritualidade, para alcançar o Sol da Verdade, devemos trabalhar com seriedade para o desenvolvimento de nossa natureza superior. Sabemos que, ao paralisar gradualmente dentro de nós os apetites da personalidade inferior e, assim, entorpecer a voz da mente puramente fisiológica – aquela mente que depende e é inseparável de seu meio ou veículo, o cérebro orgânico -, o homem animal em nós pode dar lugar ao espiritual; e, uma vez despertado de seu estado latente, os sentidos e as percepções espirituais mais elevados crescem em nós proporcionalmente e se desenvolvem pari passu com o “homem divino”. Isso é o que os grandes Adeptos, os Iogues no Oriente e os místicos no Ocidente, sempre fizeram e continuam fazendo.
Mas também sabemos que, com poucas exceções, nenhum homem do mundo, nenhum materialista, jamais acreditará na existência de tais Adeptos, ou mesmo na possibilidade de tal desenvolvimento espiritual ou psíquico. O tolo (antigo) disse em seu íntimo: “Não há Deus”; o moderno diz: “Não há Adeptos na Terra, Eles são invenções de sua fantasia doentia”. Sabendo disso, nos apressamos em tranquilizar nossos leitores do tipo Thomas Didymus. Pedimos a eles que entreguem esta revista para que possam ler algo que lhes seja mais agradável; digamos, os diversos artigos sobre Hylo-Idealismo, de vários autores. (2)
_________________
(2) Por exemplo, para o pequeno artigo “Autocentrismo” – sobre a mesma “filosofia”, ou novamente, para o ápice da pirâmide Hylo-Idealista neste número. É uma carta de protesto do erudito fundador da Escola em questão, contra um erro nosso. Ele reclama de termos “associado” seu nome aos dos Srs. Herbert Spencer, Darwin, Huxley e outros, quanto à questão do ateísmo e do materialismo, uma vez que as referidas luzes nas ciências psicológicas e físicas são consideradas pelo Dr. Lewins demasiadamente cintilantes, “comprometedoras” e fracas para merecerem a honrosa denominação de ateus ou mesmo de agnósticos. Vide “Correspondence” em Coluna Dupla, e a resposta de “The Adversary”.
Porque LUCIFER tenta satisfazer seus leitores de qualquer “escola de pensamento” e se mostra igualmente imparcial com teístas e ateus, místicos e agnósticos, cristãos e pagãos. Artigos como os nossos editoriais, os Comentários sobre “Luz no Caminho”, etc., etc. – não se destinam a materialistas. Eles são dirigidos a teosofistas, ou leitores que têm em seus corações a certeza de que os Mestres da Sabedoria existem: e, embora a Verdade absoluta não esteja na Terra e tenha que ser procurada em regiões mais elevadas, que lá ainda estão, mesmo neste nosso pequeno globo tolo e sempre girando, algumas coisas que nem sequer são sonhadas na filosofia ocidental.
Voltando ao nosso assunto. Segue-se, portanto, que, embora “a verdade abstrata geral seja a mais preciosa de todas as bênçãos” para muitos de nós, como era para Rousseau, temos, por enquanto, de nos contentar com verdades relativas. De fato, somos, na melhor das hipóteses, um pobre conjunto de mortais, sempre temerosos diante até mesmo de uma verdade relativa, para que ela não devore a nós mesmos e aos nossos pequenos pré-conceitos mesquinhos além de nós. Quanto a uma Verdade absoluta, a maioria de nós é tão incapaz de vê-la quanto de alcançar a Lua em uma bicicleta. Em primeiro lugar, porque a Verdade absoluta é tão inamovível quanto a montanha de Maomé, que se recusou a se mover em direção ao profeta, de modo que ele mesmo teve de ir até ela. E nós temos de seguir o seu exemplo se quisermos nos aproximar dela, mesmo à distância. Em segundo lugar, porque o reino da Verdade absoluta não é deste mundo, enquanto nós somos muitíssimo dele. E, em terceiro lugar, porque, apesar de, na fantasia do poeta, o homem ser
“… o abstrato
De toda perfeição, que a obra
Do céu modelou … “
na realidade, ele é um triste feixe de anomalias e paradoxos, um saco de vento vazio inflado com sua própria importância, com opiniões contraditórias e facilmente influenciáveis. Ele é, ao mesmo tempo, uma criatura arrogante e fraca, que, embora em constante pavor de alguma autoridade, terrestre ou celestial, ainda assim irá…
“… como um macaco furioso,
Fazer truques tão fantásticos diante do elevado Céu
Que fazem os anjos chorarem.”
Ora, como a verdade é uma joia multifacetada, cujas facetas é impossível perceber todas de uma só vez; e uma vez que, novamente, não há dois homens, por mais ansiosos que estejam para discernir a verdade, que possam ver até mesmo uma dessas facetas da mesma forma, o que pode ser feito para ajudá-los a percebê-la? Como o homem físico, limitado e restringido por ilusões de todos os lados, não pode alcançar a verdade pela Luz de suas percepções terrestres, dizemos – desenvolva em vós o conhecimento interno. Desde quando o oráculo délfico disse ao indagador: “Homem, conhece-te a ti mesmo”, nenhuma verdade maior ou mais importante jamais foi ensinada. Sem tal percepção, o homem permanecerá sempre cego até mesmo para muitas verdades relativas, quanto mais a absoluta. O homem precisa conhecer a si mesmo, isto é, adquirir as percepções internas que nunca enganam, antes de poder dominar qualquer Verdade absoluta. A Verdade absoluta é o símbolo da Eternidade, e nenhuma mente finita pode jamais apreender o eterno, portanto, nenhuma verdade em sua plenitude pode jamais surgir sobre ela. Para alcançar o estado durante o qual o homem a vê e a sente, temos de paralisar os sentidos do homem externo de barro. Podem nos dizer que essa é uma tarefa difícil, e a maioria das pessoas preferirá, a essa altura, permanecer satisfeita com verdades relativas, sem dúvida. Mas abordar até mesmo verdades terrenas requer, antes de tudo, amor à verdade por ela mesma, pois, caso contrário, não haverá reconhecimento dela. E quem, nesta época, ama a verdade por ela mesma? Quantos de nós estão preparados para procurá-la, aceitá-la e levá-la adiante, em meio a uma sociedade em que qualquer coisa que alcance o sucesso deve ser construído com base nas aparências, não na realidade, na autoafirmação, não no valor intrínseco? Estamos plenamente conscientes das dificuldades que existem no caminho para receber a verdade. A bela donzela celestial desce apenas sobre um solo compatível (para ela) – o solo de uma mente imparcial e sem preconceitos, iluminada pela Consciência Espiritual pura; e ambos são habitantes verdadeiramente raros em terras civilizadas. Em nosso século de vapor e eletricidade, quando o homem vive a uma velocidade enlouquecedora que mal lhe deixa tempo para reflexão, ele geralmente se deixa levar do berço à sepultura, pregado ao leito procustiano do costume e do convencionalismo. Ora, o convencionalismo – puro e simples – é uma MENTIRA congênita, pois é, em todos os casos, uma “simulação de sentimentos de acordo com um padrão recebido” (definição de F. W. Robertson); e onde há qualquer simulação, não pode haver qualquer verdade. Quão profunda é a observação feita por Byron, de que “a verdade é uma joia que se encontra em grande profundidade; enquanto na superfície deste mundo todas as coisas são pesadas pelas falsas balanças do costume“, é mais conhecida por aqueles que são forçados a viver na atmosfera sufocante de tal convencionalismo social, e que, mesmo quando estão dispostos e ansiosos para aprender, não ousam aceitar as verdades que anseiam, por medo do feroz Moloch chamado Sociedade.
Olhe à sua volta, leitor; estude os relatos dos viajantes mundialmente conhecidos, relembre as observações conjuntas de pensadores literários, os dados da ciência e das estatísticas. Desenhe o quadro da sociedade moderna, da política moderna, da religião moderna e da vida moderna em geral, diante dos seus olhos. Lembre os hábitos e costumes de cada raça e nação culta sob o sol. Observe os feitos e a atitude moral das pessoas nos centros civilizados da Europa, América e mesmo do Extremo Oriente e das colônias, em todos os lugares onde o homem branco levou os “benefícios” da chamada civilização. E agora, tendo passado em revista tudo isso, faça uma pausa e reflita, e então nomeie, se puder, aquele Eldorado abençoado, aquele lugar excepcional no globo, onde a VERDADE é a convidada de honra, e a MENTIRA e a FALSIDADE, os párias condenados ao ostracismo? Você NÃO CONSEGUE. Nem ninguém mais consegue, a menos que esteja preparado e determinado a adicionar a sua migalha à massa de falsidade que reina suprema em todos os departamentos da vida nacional e social. “Verdade!” gritou Carlyle, “verdade, ainda que os céus me esmaguem por segui-la, nenhuma falsidade, ainda que toda uma Lubberlândia celestial fosse o prêmio da Apostasia.” Palavras nobres, essas. Mas quantos pensam, e quantos ousarão falar como Carlyle falou, em nossos dias do século dezenove? Não prefere a gigantesca e terrível maioria o “paraíso do Fazer-Nada” para o homem, o país de Cocagne do egoísmo sem coração? É essa maioria que recua aterrorizada ante o esboço mais sombrio de cada nova e impopular verdade, por mero medo covarde, para que a Sra. Harris não denuncie e a Sra. Grundy não condene seus convertidos à tortura de serem despedaçados por sua língua assassina.
O EGOISMO, o primogênito da ignorância e o fruto do ensinamento que afirma que para cada recém-nascido é “criada” uma nova Alma, separada e distinta da Alma Universal – esse egoísmo é o muro intransponível entre o Self pessoal e a Verdade. Ele é a mãe prolífica de todos os vícios humanos, sendo a Mentira nascida da necessidade de dissimilar e a Hipocrisia do desejo de mascarar a mentira. Ele é o fungo que cresce e se fortalece com a idade em todo coração humano no qual devorou todos os melhores sentimentos. O egoísmo mata todos os impulsos nobres em nossas naturezas, e é aquela divindade, que não teme a falta de fé ou a deserção de seus devotos. Por isso, vemos que ele reina supremo no mundo e na chamada alta sociedade. Em consequência, vivemos, nos movemos e temos nossa existência nesse deus das trevas sob seu aspecto trinitário da Falsidade, fraude e Falsidade, chamado RESPEITABILIDADE.
Isso é Verdade e Fato ou é calúnia? De qualquer ângulo que olhar, você encontrará, do topo até a base da escada social, engano e hipocrisia em ação em prol do próprio ego, tanto em cada nação quanto em cada indivíduo. Mas as nações, por acordo tácito, decidiram que os motivos egoístas na política devem ser chamados de “aspiração nacional nobre, patriotismo”, etc.; e o cidadão vê isso em seu círculo familiar como “virtude doméstica”. No entanto, o Egoísmo, quer gere o desejo pelo engrandecimento do território, quer gere a competição no comércio em detrimento do vizinho, nunca pode ser considerado uma virtude. Vemos o ENGANO e a FORÇA BRUTA de fala mansa – o Jachin e o Boaz de todo Templo Internacional de Salomão – chamados de Diplomacia, e nós o chamamos pelo seu nome correto. Porque o diplomata se curva diante desses dois pilares da glória e política nacional, e coloca seu simbolismo maçônico “na (astuciosa) força esta minha casa será constituída” na prática diária; ou seja, obtém por engano o que não pode obter pela força – devemos aplaudi-lo? A qualificação de um diplomata – “destreza ou habilidade em assegurar vantagens” – para seu próprio país em detrimento de outros países, dificilmente pode ser conseguida falando a verdade, mas sim por meio de uma língua astuta e enganosa; e, portanto, LUCIFER chama tal ação de – uma viva e evidente MENTIRA.
Mas não é somente na política que o hábito e o egoísmo concordaram em chamar de virtude a trapaça a mentira, e em recompensar aquele que mente melhor com estátuas públicas. Todas as classes da sociedade vivem da MENTIRA e cairiam aos pedaços sem ela. A aristocracia culta e temente a Deus e às leis, sendo tão afeiçoada ao fruto proibido como qualquer plebeu, é forçada a mentir de manhã ao meio-dia, a fim de cobrir o que se compraz em chamar seus “pequenos pecadinhos”, mas que a VERDADE considera como uma grosseira imoralidade. A sociedade da classe média está repleta de sorrisos falsos, conversas falsas e traição mútua. Para a maioria, a religião se tornou um fino véu de ouropel jogado sobre o cadáver da fé espiritual. O patrão vai à igreja para enganar os seus servos; o vigário faminto – pregando aquilo em que deixou de acreditar – engana seu bispo, o bispo – seu Deus. Os jornais diários, políticos e sociais, poderiam adotar com vantagem o lema de Georges Dandin, “Lequel de nous deux trompe-t-on ici?” – Até mesmo a ciência, que já foi a âncora da salvação da Verdade, deixou de ser o templo do Fato nu e cru. Quase todos os cientistas se esforçam agora apenas para forçar seus colegas e o público a aceitarem algum passatempo pessoal, alguma teoria nova, que dará brilho a seu nome e fama. Um cientista está tão pronto para suprimir evidências prejudiciais contra uma hipótese científica atual em nossos tempos, como um missionário em terras pagãs ou um pregador em casa, para persuadir sua congregação de que a geologia moderna é uma mentira, e a evolução não passa de vaidade e exasperação do espírito.
Esse é o estado real das coisas em 1888 d.C. e, ainda assim somos repreendidos por certos jornais por vermos este ano em cores mais do que sombrias!
A mentira se espalhou a tal ponto – apoiada por costumes e convencionalidades – que até mesmo a cronologia força as pessoas a mentir. Os sufixos a.C. e d.C. usados após as datas do ano pelos judeus e pagãos, em terras europeias e até asiáticas, pelo materialista e pelo agnóstico, tanto quanto pelo cristão, em casa, são – uma mentira usada para sancionar outra MENTIRA.
Onde, então, é possível encontrar até mesmo a verdade relativa? Se, já no século de Demócrito, ela apareceu para ele sob a forma de uma deusa deitada no fundo de um poço, tão profundo que dava pouca esperança de sua libertação; nas circunstâncias atuais, temos um certo direito de acreditar que ela está escondida, pelo menos, tão distante quanto o sempre invisível lado escuro da Lua. É por isso que, talvez, todos os devotos de verdades ocultas sejam imediatamente considerados lunáticos. Seja como for, em nenhum caso e sob nenhuma ameaça, LUCIFER jamais será forçada a ser conivente com qualquer mentira universal e tacitamente reconhecida e praticada universalmente, mas se aterá aos fatos, pura e simplesmente, tentando proclamar a verdade sempre que for encontrada, e sem nenhuma máscara covarde. O fanatismo e a intolerância podem ser considerados como uma política ortodoxa e sólida, e o incentivo aos preconceitos sociais e passatempos pessoais à custa da verdade, como um caminho sábio a ser seguido para garantir o sucesso de uma publicação. Que assim seja. Os editores da LUCIFER são teosofistas, e seu lema foi escolhido: Vera pro gratiis.
Eles estão bem conscientes de que as oferendas e sacrifícios de LUCIFER à deusa Verdade não enviam uma fumaça doce e saborosa para os narizes dos senhores da imprensa, nem o brilhante “Filho da Manhã” exala um cheiro doce às suas narinas. Ele é ignorado quando não é maltratado como — veritas odium parit. Até mesmo seus amigos estão começando a criticá-lo. Eles não conseguem ver por que ela não deveria ser uma revista puramente teosófica, em outras palavras, por que ela se recusa a ser dogmática e fanática. Em vez de dedicar cada centímetro de espaço aos ensinamentos teosóficos e ocultistas, ela abre suas páginas “à publicação dos elementos mais grotescamente heterogêneos e doutrinas conflitantes”. Esta é a principal acusação, à qual respondemos – por que não? A Teosofia é conhecimento divino, e conhecimento é verdade; cada fato verdadeiro, cada palavra sincera são, portanto, partes integrantes da Teosofia. Aquele que é hábil na alquimia divina, ou mesmo aproximadamente abençoado com o dom da percepção da verdade, encontrará e extrairá a verdade de uma afirmação errônea tanto quanto de uma afirmação correta. Por menor que seja a partícula de ouro perdida em uma tonelada de lixo, ela ainda é o metal nobre e digno de ser desenterrado, mesmo à custa de mais problemas. Conforme já foi dito, muitas vezes é tão útil saber o que uma coisa não é, quanto aprender o que ela é. O leitor comum dificilmente pode esperar encontrar qualquer fato em uma publicação sectária sob todos os seus aspectos, a favor e contra, pois, de uma forma ou de outra, a sua apresentação é certamente será enviesada e as balanças ajudadas a inclinar-se para aquele lado para o qual a diretriz especial de seu editor está direcionada. Uma revista teosófica é, portanto, talvez a única publicação onde se pode esperar encontrar, de todo modo, a verdade e o fato imparciais, ainda que apenas aproximados. A verdade nua e crua é refletida em LUCIFER sob seus muitos aspectos, pois nenhuma visão filosófica ou religiosa é excluída de suas páginas. E, como toda filosofia e religião, por mais incompletas, insatisfatórias e até mesmo tolas que algumas ocasionalmente possam ser, devem estar baseadas em algum tipo de verdade e fato, o leitor tem, assim, a oportunidade de comparar, analisar e escolher entre as várias filosofias discutidas nesse texto. LUCIFER oferece tantas facetas da Única Joia Universal quanto seu espaço limitado permitir, e diz aos seus leitores: “Escolhei hoje a quem ireis servir: se aos deuses que estavam do outro lado do dilúvio, que submergiram os poderes de raciocínio e o conhecimento divino do homem, ou aos deuses dos Amorreus dos costumes e da falsidade social, ou ainda ao Senhor do (mais elevado) Self – o destruidor brilhante do poder sombrio da ilusão?” Certamente, é essa filosofia que tende a diminuir, em vez de acrescentar, á somatória da miséria humana, que é a melhor.
Em todo caso, a escolha está aí, e somente para essa finalidade abrimos nossas páginas a todo tipo de colaboradores. Portanto, você encontra nelas as opiniões de um clérigo cristão que acredita em seu Deus e em Cristo, mas rejeita as interpretações perversas e os dogmas impostos por sua ambiciosa e orgulhosa igreja, junto com as doutrinas do hylo-idealista, que nega Deus, Alma e imortalidade, e não acredita em nada além de si mesmo. Os materialistas mais convictos encontrarão hospitalidade em nossa revista; sim, até mesmo aqueles que não tiveram escrúpulos em encher suas páginas com zombarias e comentários pessoais sobre nós mesmos, e insultos às doutrinas da Teosofia, tão caras a nós. Quando uma revista de pensamento livre, dirigida por um ateu, insere um artigo de um místico ou teosofista elogiando suas opiniões ocultas e o mistério de Parabrahman, e faz apenas alguns comentários casuais sobre o assunto, então podemos dizer que LUCIFER encontrou um rival. Quando um periódico cristão ou órgão missionário aceita um artigo escrito por um livre-pensador que ridiculariza a crença em Adão e sua costela, e faz críticas ao cristianismo – a fé de seu editor – em um silêncio manso, então ele terá se tornado digno de LUCIFER, e pode se dizer que realmente alcançou tal grau de tolerância que pode ser colocado no mesmo nível de qualquer publicação teosófica.
Mas, enquanto nenhum desses órgãos fizer algo desse tipo, todos eles serão sectários, fanáticos, intolerantes e nunca poderão ter uma ideia de verdade e justiça. Eles podem lançar insinuações contra a LUCIFER e seus editores, mas não podem afetar nenhum deles. Na verdade, os editores dessa revista sentem-se orgulhosos de tais críticas e acusações, pois são testemunhas da absoluta ausência de fanatismo ou arrogância de qualquer tipo na Teosofia, resultado da beleza divina das doutrinas que ela prega. Pois, como já foi dito, a Teosofia permite que todos sejam ouvidos e tenham uma oportunidade justa. Ela não considera nenhum ponto de vista – se sincero – inteiramente destituído de verdade. Ela respeita os homens pensantes, de qualquer linha de pensamento a que eles possam pertencer. Sempre pronta a se opor a ideias e pontos de vista que só podem criar confusão sem beneficiar a filosofia, ela deixa seus expositores acreditarem pessoalmente no que quiserem, e faz justiça às suas ideias quando elas são boas. De fato, as conclusões ou deduções de um escritor filosófico podem ser inteiramente opostas aos nossos pontos de vista e aos ensinamentos que expomos; contudo, suas premissas e declarações de fatos podem ser bastante corretas, e outras pessoas podem lucrar com a filosofia contrária, mesmo que nós mesmos a rejeitemos, acreditando que temos algo mais elevado e ainda mais próximo da verdade. Em qualquer caso, nossa profissão de fé agora está clara, e tudo o que foi dito nas páginas anteriores justifica e explica a nossa política editorial.
Para resumir a ideia, no que diz respeito à Verdade absoluta e relativa, só podemos repetir o que dissemos anteriormente. Além de um certo estado de espírito altamente espiritual e elevado, durante o qual o Homem está em sintonia com a MENTE UNIVERSAL – ele não consegue obter nada na Terra além de verdade relativa, ou verdades, de qualquer filosofia ou religião. Mesmo que a deusa que habita no fundo do poço saísse de seu lugar de confinamento, ela não poderia dar ao homem mais do que ele pode assimilar. Entretanto, todos podem se sentar perto desse poço – cujo nome é CONHECIMENTO – e olhar para suas profundezas na esperança de ver a bela imagem da Verdade refletida, pelo menos, nas águas escuras. Isso, no entanto, como observou Richter, apresenta um certo perigo. Algumas verdades, com certeza, podem ser refletidas ocasionalmente como em um espelho no local para o qual olhamos, e assim recompensar o estudante paciente. Mas, acrescenta o pensador alemão, “ouvi dizer que alguns filósofos, ao buscarem a Verdade, para homenageá-la, viram sua própria imagem na água e a adoraram em seu lugar”…
É para evitar tal calamidade – que se abateu sobre todos os fundadores de uma escola religiosa ou filosófica – que os editores têm o meticuloso cuidado de não oferecer ao leitor apenas as verdades que eles encontram refletidas em seus próprios cérebros pessoais. Eles oferecem ao público uma ampla escolha e se recusam a demonstrar fanatismo e intolerância, que são os principais marcos no caminho do sectarismo. Mas, embora deixem a mais ampla margem possível para comparação, nossos adversários não podem esperar encontrar seus rostos refletidos nas águas límpidas de nossa LUCIFER, sem comentários ou críticas justas sobre as características mais proeminentes, se em contraste com as visões teosóficas.
Isso, porém, apenas na capa da revista pública, e no que diz respeito ao aspecto meramente intelectual das verdades filosóficas. Quanto às crenças espirituais mais profundas, e quase se pode dizer religiosas, nenhum teosofista verdadeiro deveria degradá-las submetendo-as à discussão pública, mas deveria antes valorizá-las e escondê-las profundamente no santuário de sua Alma mais íntima. Tais crenças e doutrinas nunca devem ser divulgadas precipitadamente, pois correm o risco inevitável de serem profanadas pelo tratamento rude dos indiferentes e críticos. Nem devem ser incorporadas em qualquer publicação, exceto como hipóteses oferecidas à consideração da parte pensante do público. As verdades teosóficas, quando transcendem um certo limite de especulação, devem ser mantidas ocultas de vista do público, pois a “evidência das coisas que não se veem” não é evidência senão para aquele que as vê, ouve e sente. Ela não deve ser arrastada para fora do “Santo dos Santos”, o templo do divino Ego impessoal, ou do Self que reside internamente. Pois, embora cada fato fora de sua percepção possa, como já demonstramos, ser, na melhor das hipóteses, apenas uma verdade relativa, um raio da Verdade absoluta pode refletir-se apenas no espelho puro de sua própria chama – nossa mais elevada CONSCIÊNCIA ESPIRITUAL. E como pode a escuridão (da ilusão) compreender a LUZ que nela brilha?
Lucifer, fevereiro de 1888