Algo novo-R. Crosbie
Provavelmente o pedido mais comum que os estudantes de Teosofia ouvem de certos setores é por “Algo Novo”. Alguns pesquisadores e iniciantes, e até mesmo alguns estudantes, parecem pensar que, como hoje em dia há tanta ansiedade no mundo para ficar sabendo dos mais modernos estilos de roupas, das mais recentes diversões, das últimas gírias, dos últimos campeões de venda e das últimas notícias sobre os mais recentes herói ou heroína do crime, deveria haver algo “mais recente” na Teosofia.
O anseio por algo “novo” não surpreende o estudante de Teosofia pois ele sabe alguma coisa sobre a lei cíclica, o caldeirão cultural e a sua espuma necessária; e também sabe que Manas, operando por meio do cérebro, tem várias peculiaridades: voar para longe de qualquer ponto, objeto ou assunto; voar para alguma ideia agradável ou desagradável, e coisas do gênero.
Esse desejo de obter algo novo em Teosofia implica necessariamente uma ignorância grosseira da natureza dos Mestres, da extensão de sua sabedoria e poderes e das três proposições fundamentais de “A Doutrina Secreta”. O Adepto Mais Elevado mencionado na literatura teosófica – “para cuja visão o futuro é como uma página aberta”, conforme um Mahatma escreveu sobre Ele – delineou os propósitos do trabalho teosófico em uma carta que deveria ser bem conhecida por todos os estudantes sérios, publicada em “Theosophy”, janeiro de 1922. Ela é fundamental para formar uma concepção verdadeira do Movimento Teosófico de que “A Doutrina Secreta” foi declarada por Eles mesmos como sendo a produção dos Mestres. (1) É, então, ilógico supor que a Mensagem Deles para a humanidade esteja contida nestes e em todos os outros escritos teosóficos de H.P. Blavatsky e W. Q. Judge, pelo menos até 1975? Não!
Se o futuro fosse de fato “como uma página aberta”, os anos de 1875 até 1975, incluindo o nosso atual 1922, seriam certamente conhecidos e previstos.
O espírito de profecia não é muito valorizado nesta época, e isso se deve às evidências extremamente incertas nas quais a maioria das profecias registradas foram baseadas; um fato que vários supostos astrólogos (“que estão mais confusos do que qualquer outro místico”, conforme escreveu W. Q. J.), “adeptos aquarianos” e outros especialistas em “ocultismo” estão
continuamente demonstrando. Mas se for reconhecido que, de acordo com a lei universal da evolução, os Seres acima da humanidade passaram por um estágio de desenvolvimento semelhante ao nosso e alcançaram um conhecimento completo das leis que governam o progresso dos seres, pode-se admitir prontamente que as profecias dadas por Eles ao mundo não se baseariam em outra coisa senão em um equilíbrio preciso de causa e efeito. Uma dessas profecias trata particularmente de nosso período atual. W. Q. Judge escreve:
” … “A Doutrina Secreta” (foi escrita) para que os futuros setenta e cinco anos e mais tivessem algum material para ser trabalhado e para que, nos anos seguintes, esse livro e suas teorias fossem amplamente estudados. O material fornecido deve então ser trabalhado e assimilado para o bem-estar de todos. Já estamos entrando no início de uma nova era. É a era do Ocultismo Ocidental e de tratamento especial e definitivo e da exposição de teorias consideradas de forma geral, até o momento. Temos de fazer como Buda disse aos seus discípulos: pregar, promulgar, expor, ilustrar e deixar claro em detalhes todas as grandes coisas que aprendemos. Este é o nosso trabalho, e não a revelação de coisas surpreendentes sobre a clarividência e outras questões astrais, nem ofuscar os olhos da ciência com descobertas impossíveis para eles, mas fáceis para o ocultista”. O plano do Mestre não foi alterado. Ele o revelou há muito tempo. É para tornar o mundo em geral melhor, preparar um solo adequado para o crescimento dos poderes da Alma, que são perigosos se surgirem em nosso atual solo egoísta. Não é a Loja Negra que tenta conter o desenvolvimento psíquico, mas sim a Loja Branca. A loja Negra gostaria de ter todos os poderes psíquicos em plena floração agora, pois em nosso povo perversos, mesquinho, hipócrita e ganancioso, eles logo destruiriam a Raça”.
Isso era frequentemente explicado por H. P. B. – e a simples ilustração do fazendeiro semeando na primavera e fazendo outros trabalhos necessários em outras épocas do ciclo, aponta para a lei aplicável – que a Grande Loja cessou sua forma e influência direta e pública com o encerramento do último quarto do século passado. Ela escreveu que se eles continuassem com o esforço público por mais tempo do que isso, ocorreria uma reação muito semelhante a uma indigestão. É preciso dar tempo para a assimilação, ou a “sombra escura que segue toda inovação” esmagaria a Alma do homem. Aqui vemos, também, uma previsão da grande inundação, desde 1896, de ensinamentos supostamente clarividentes, astrológicos e similares – e a tentativa de “trazer à tona coisas surpreendentes sobre clarividência e outros assuntos astrais” – nos muitos lugares onde as antigas sociedades teosóficas costumavam ser tão ativas e aos olhos do público. Podemos reconhecer facilmente que todos os pretensos novos ensinamentos e revelações novas são nada menos que a “sombra escura que segue todas as inovações”. O Sr. Judge acrescenta que, nesse ciclo, a mão poderosa “daquele grande Iniciado, cuja simples vontade sustenta todo o movimento”, se estenderá por trás de todos os verdadeiros trabalhadores.
No entanto, a Loja dos Mestres nunca deixa de trabalhar com indivíduos; ela sempre existe; a voz do Mestre está sempre presente no mundo. Será que não é lógico que a única maneira de encontrar essa Loja é nos valermos da literatura pública que Eles deixaram e preservaram para nós a um custo tão alto, e irmos trabalhar para Eles das maneiras claramente indicadas nesses ensinamentos?
Se formos honestos conosco mesmos, não perceberemos que o desejo por novos pratos teosóficos é simplesmente egoísmo: queremos “algo novo”? Se conhecemos tão bem os ensinamentos disponíveis, há outros que não os conhecem. “Por que não estamos, nas palavras de W.Q. Judge para esta época, fazendo o máximo em tempo, dinheiro e trabalho para difundir a literatura teosófica como ela foi fornecida por Aqueles que a trouxeram? Por que não estamos, nas palavras de W. Q. J. para este período “pregando, promulgando, expondo, exemplificando e tornando claras todas as grandes coisas que aprendemos”, ou que pensamos ter aprendido?
O trabalho e o privilégio do verdadeiro estudante de Teosofia é ajudar a manter as Diretrizes Estabelecidas pelos Mestres. Temos todo o material necessário em preto e branco; a Grande Influência está aí, como sempre, para aqueles que, com um objetivo, um propósito e um ensinamento, fazem o que podem para pregar, promulgar e praticar a Teosofia pura sem motivos pessoais. Na verdade, quanto mais nos esforçarmos honestamente para fazer isso, mais veremos nos ensinamentos que achamos que conhecemos tão bem. O que é necessário não é algo novo, mas uma nova maneira de ver o que está diante de nós.
(1) Vide “The Theosophical Movement.” em “Theosophy”, Fevereiro 1922.
ROBERT CROSBIE
“Theosophy” vol. X, pág.167