Os Mahatmas como Ideais e Fatos-W.Q. Judge
Um visitante de um dos outros planetas do sistema solar que aprendesse o termo Mahatma depois de chegar aqui certamente suporia que a etimologia da palavra sem dúvida inspirou os crentes nos Mahatmas com a devoção, destemor, esperança e energia que tal ideal deveria despertar naqueles que têm o bem-estar da Raça humana no coração. Tal suposição estaria correta em relação a alguns, mas o visitante celestial, após examinar todos os membros da Sociedade Teosófica não poderia deixar de se decepcionar ao perceber que muitos dos crentes tinham medo de seus próprios ideais, hesitavam em proclamá-los, estavam com preguiça para encontrar argumentos para justificar sua esperança, e tudo porque o mundo materialista, perverso e escarnecedor poderia rir de tal crença.
Todo o alcance, significado e possibilidade da evolução estão contidos na palavra Mahatma. Maha significa “grande” e Atma significa “Alma”, e ambas juntas significam aquelas grandes Almas que triunfaram antes de nós, não porque fossem feitas de uma substância diferente ou pertencessem a uma família incomum, mas simplesmente porque são da Raça humana. Reencarnação, Carma, a divisão setenária, retribuição, recompensa, luta, fracasso, sucesso, iluminação, poder e um vasto amor abrangente pelo homem, tudo isso está contido nessa única palavra. A Alma emerge do desconhecido, começa a trabalhar na matéria e com ela, renasce repetidamente, produz Carma, desenvolve os seis veículos para mesma, encontra retribuição pelo pecado e punição pelo erro, fortalece-se pelo sofrimento, consegue romper a escuridão, é iluminada pela luz verdadeira, agarra o poder, preserva a caridade, expande-se com amor pela humanidade órfã e, a partir daí, ajuda todos os outros que permanecem na escuridão até que todos possam ser elevados ao lugar com o “Pai no Céu”, que é o Self Superior. Este seria o argumento do visitante do planeta distante, e nele ele descreveria um grande ideal para todos os membros de uma Sociedade como a nossa, que teve seu primeiro impulso a partir de alguns desses mesmos Mahatmas.
Sem entrar em qualquer discussão além de dizer que a evolução exige que tais Seres devem existir ou haverá uma lacuna na cadeia – e essa posição é defendida até mesmo por um homem de ciência como o Professor Huxley, que em seus últimos ensaios a expressa em linguagem quase tão inequívoca quanto a minha -, este artigo é destinado àqueles que acreditam na existência dos Mahatmas, quer essa fé tenha surgido por si mesma ou seja resultado de raciocínio. Ele também se destina a todas as classes de crentes, porque eles são de vários tipos. Alguns acreditam sem vacilar; outros acreditam inabalavelmente, mas têm medo de falar sobre sua crença; alguns poucos acreditam, mas estão sempre pensando que devem ser capazes de dizer que viram um Adepto antes de poderem incutir sua crença nos outros; e um certo número deliberadamente esconde a crença como uma espécie de posse individual que os separa dos mortais profanos que nunca ouviram falar dos Adeptos ou que, tendo ouvido, escarnecem da noção. Desejo falar a todos esses. Essas pessoas infelizes que estão sempre tentando julgar homens elevados e sábios pelas regras convencionais de uma civilização em transição, ou que aparentemente têm medo de uma vasta possibilidade para o homem e, portanto, negam, podem muito bem ser deixadas a si mesmas e ao tempo, pois é mais do que provável que caiam na crença geral quando ela se formar, como certamente acontecerá em pouco tempo. Porque a crença nos Mahatmas – qualquer que seja o nome que se dê ao conceito – é uma propriedade comum de toda a Raça humana, e todos os esforços de todos os homens da ciência empírica e da religião dogmática nunca poderão matar a própria memória da Alma do seu passado.
Devemos declarar nossa crença nos Adeptos, ao mesmo tempo em que não exigimos a adesão de ninguém. Não é necessário dar os nomes de nenhum dos Adeptos, pois um nome é uma invenção de uma família, e poucas pessoas pensam nelas mesmas pelo nome a não ser pela frase “Eu sou eu mesmo”. Dar nome a esses Seres, então, não é prova, e buscar nomes misteriosos é convidar à condenação por profanação. O ideal sem o nome é grande e grandioso o suficiente para todos os propósitos.
Há alguns anos, os Adeptos escreveram e disseram a H.P.B. e a várias pessoas que mais ajuda poderia ser dada ao movimento na América, porque o fato de sua existência não era ocultado por motivos de medo ou dúvida. Naturalmente, esta afirmação traz consigo, por contradição, a conclusão de que, onde, por medo das escolas de ciência ou de religião, os membros não se referiram muito à crença nos Mahatmas, o poder de ajudar foi, por alguma razão, inibido. Esse é o ponto interessante e levanta a questão: “O poder de ajuda dos Mahatmas pode ser inibido por algum motivo?” A resposta é: “sim, pode”. Mas por quê?
Todos os efeitos em todos os planos são o resultado de forças postas em movimento e não podem ser o resultado do nada, mas devem sempre fluir de causas nas quais estão envolvidos. Se o canal através do qual a água deve fluir estiver entupido, a água não correrá por ali, mas se for fornecido um canal desobstruído, o fluxo passará adiante. A ajuda oculta dos Mestres requer um canal, assim como qualquer outra ajuda, e o fato de que os fluxos a serem usados são ocultas torna a necessidade de um canal ainda maior. As pessoas sobre as quais se vai agir devem participar na criação do canal ou linha para que a força atue, porque se não o fizerem, eles não poderão dá-la. Agora, como estamos lidando com a mente e a natureza do homem, temos que lançar as palavras que despertarão as ideias relacionadas com as forças que desejamos empregar. Neste caso, as palavras são aquelas que trazem à tona a doutrina da existência de Adeptos, Mahatmas, Mestres da sabedoria. Daí o valor da declaração de nossa crença. Ela desperta ideias adormecidas nos outros, abre um canal na mente, serve para produzir as linhas condutoras para as forças que os Mahatmas desejam entregar. Muitos jovens que nunca poderiam sequer sonhar em conhecer grandes professores modernos de ciência como Huxley, Tyndall e Darwin, têm estado animados para agir, levados à autoajuda, impelidos a buscar conhecimento, ao ter ouvido que tais homens realmente existem e são seres humanos. Sem parar para perguntar se a prova de que eles vivem na Europa é comprovada, os homens têm procurado seguir seu exemplo. Por que não aproveitamos essa mesma lei da mente humana e deixamos que o vasto poder da Loja trabalhe com a nossa assistência e não contra a nossa oposição, dúvida ou medo? Aqueles que são dedicados sabem como tiveram ajuda invisível que se mostrou em resultados. Aqueles que temem podem ter coragem, pois descobrirão que nem todos os seus semelhantes são desprovidos de uma crença subjacente nas possibilidades delineadas pela doutrina da existência dos Adeptos.
E se examinarmos o trabalho da Sociedade [teosófica], descobriremos que sempre que os membros professam corajosamente sua crença e não têm medo de falar desse elevado ideal, o interesse pela Teosofia é despertado, o trabalho continua e as pessoas são beneficiadas. Em contrapartida, onde há dúvidas constantes, pedidos incessantes por provas materiais, medo incessante do que o mundo, a ciência ou os amigos pensarão, ali o trabalho está morto, o campo não é cultivado e a cidade ou vila não recebe nenhum benefício dos esforços daqueles que, embora formalmente pertençam a uma fraternidade universal, não estão vivenciando o grande ideal.
Muito sabiamente e como ocultista, Jesus disse que seus seguidores devem renunciar a tudo e segui-lo. Devemos renunciar ao desejo de salvar a nós mesmos e adquirir o desejo oposto, o de salvar os outros. Recordemos a história, nos escritos antigos, de Arjuna, que, ao entrar no céu e descobrir que seu cão não havia sido admitido e que alguns de seus amigos estavam no inferno, recusou-se a permanecer e disse que, enquanto uma criatura estivesse fora do céu, ele não entraria nele. Essa é a verdadeira devoção, e isso, juntamente com uma declaração inteligente de crença na grande iniciação da raça humana, conduzirá a resultados de grande magnitude, invocará as forças que estão por trás, prevalecerá contra o próprio inferno e todos os servos do inferno que agora se esforçam para retardar o progresso da Alma humana.
EUSEBIO URBAN
Path, março 1893