Reflexões sobre o Caminho do verdadeiro Teosofista-W.Q.Judge
“O caminho da paz interior consiste em conformar-se, em todas as coisas, à vontade e à disposição da Vontade Divina. Aqueles que desejam que todas as coisas sucedam e se realizem de acordo com o seu próprio capricho, não chegam a conhecer este caminho; e, por isso, levam uma vida dura e amarga; sempre inquietos e mal-humorados, sem trilhar o caminho da paz”.
“Saiba então, ó Homem, que aquele que procura o caminho oculto só pode encontrá-lo através da porta da vida. No coração de todos, em algum momento, surge o desejo pelo conhecimento. Aquele que pensa que seu desejo será realizado, como o passarinho no ninho, que só precisa abrir a boca para ser alimentado, ficará deveras desapontado.
Em toda a natureza, não encontramos nenhum exemplo em que algum tipo de esforço não seja necessário. Descobrimos que há um resultado natural a partir de tal esforço. Aquele que deseja viver a vida ou encontrar a sabedoria só pode fazê-lo por meio de esforço contínuo. Se alguém se torna um estudante e aprende a olhar parcialmente por trás do véu, ou encontrou dentro de seu próprio ser algo que é maior do que seu self externo, isso não lhe dá autoridade para sentar-se na ociosidade ou cercar-se do contato com o mundo. Porque alguém que vê o brilho da luz à sua frente não pode dizer ao seu semelhante: “eu sou mais santo do que você” ou envolver-se no manto do isolamento.
A Alma se desenvolve como a flor, à luz do sol de Deus, e, inconscientemente no solo em que cresce. Bloqueie a luz e o solo torna-se úmido e estéril, a flor murcha ou fica pálida e enfermiça. Absolutamente todos estão aqui por uma boa e sábia razão. Se descobrirmos parcialmente o porquê de estarmos aqui, então há mais motivo para que, por meio do contato inteligente com a vida, busquemos nela uma maior elucidação do problema. Não é tanto o estudo de nós mesmos, mas o pensamento pelos outros que abre essa porta. Os acontecimentos da vida e suas causas levam ao conhecimento. Eles devem ser estudados quando se manifestam na vida cotidiana.
Não há ociosidade para o místico. Ele vive sua vida cotidiana entre os trabalhos e provações mais difíceis e árduos do mundo, talvez, mas segue seu caminho com um sorriso no rosto e alegria no coração, sem se tornar sensível demais ao se relacionar com seus semelhantes, nem tão extremamente espiritual a ponto de esquecer que outras pessoas talvez estejam passando fome.
Foi dito por alguém que fingia ensinar os mistérios: “É necessário que eu tenha um local agradável e um ambiente bonito”. Aquele que é um verdadeiro teosofista não esperará por nada disso, seja antes de ensinar, seja antes do que é necessário, que é aprender. Talvez fosse agradável, mas se a Inspiração Divina só vier nessas condições, então, de fato, o Divino está longe da maioria de nós. Somente aquele que, esquecendo seu próprio ambiente, se esforça para embelezar e iluminar os dos outros, pode ser um fator para o bem ou ensinar como se aproximar do caminho. O esforço deve ser para o bem dos outros, não para a gratificação de nossos próprios sentidos ou amor pelo agradável ou prazeroso.
Pensar em si mesmo irá, sem dúvida, impedir e derrubar seus objetivos e propósitos, particularmente quando direcionados para o oculto.
Novamente surge o pensamento: “Eu sou um estudante, um detentor de uma parte da tradição mística”. Insidiosamente, insinua-se o pensamento ” Eis que sou um pouco mais do que os outros homens, que não chegaram tão longe”. Saiba então, ó homem, que você não é tão grande quanto eles. Aquele que se considera sábio é o mais ignorante dos homens, e aquele que começa a acreditar que é sábio está em maior perigo do que qualquer outro homem que existe.
Você pensa, ó homem, que por ter obtido uma parcela do conhecimento oculto, isso lhe dá o direito de se retirar do contato com o resto da humanidade. Não é assim. Se você obteve o verdadeiro conhecimento, ele o obriga a encontrar todos os homens não apenas na metade do caminho mas, mais do que isso, a procurá-los. Ele o exorta a não se afastar mas, buscando contato, mergulhar na miséria e na tristeza do mundo e, com suas palavras de encorajamento, se você não tiver nada mais (o místico tem pouco mais), esforçar-se para aliviar o fardo de alguma Alma em dificuldade.
Você sonha com a fama. Nós não conhecemos tal coisa como fama. Aquele que busca o caminho ascendente descobre que tudo é verdade; que o mal é o bem que se desviou. Por que deveríamos pedir fama? É apenas o elogio daqueles que nos esforçamos para ajudar.
Não deseje reconhecimento, fama ou riqueza. Você é desconhecido quando está aposentado. Por não ser famoso, você não é perturbado em seu isolamento e pode caminhar pela vasta face da Terra cumprindo seu dever, conforme ordenado, sem ser reconhecido.
Se o dever se tornar difícil, ou se você esmorecer pelo caminho, não desanime, não tenha medo nem se canse do mundo. Lembre-se de que “você pode procurar o silêncio no tumulto, solidão na companhia, luz na escuridão, esquecimento nas pressões, vigor no desânimo, coragem no medo, resistência na tentação, paz na guerra e quietude na tribulação”.
II
Trabalhe como aqueles que são ambiciosos. – Respeite a vida como aqueles que a desejam. – Seja feliz como aqueles que vivem para a felicidade. – “Light on the Path”
Somos testados de maneiras maravilhosas e, nas questões aparentemente sem importância da vida, muitas vezes residem as tentações mais perigosas.
O trabalho, na melhor das hipóteses, é frequentemente desagradável devido à aversão mental ou física. Quando aquele que procura o caminho ascendente começa a encontrá-lo, o trabalho se torna mais pesado, embora, naquele momento, ele não está tão bem preparado para enfrentá-lo devido à sua condição física. Tudo isso é verdade, mas não se deve ceder a isso. É preciso esquecer. Ele deve trabalhar, e, se não puder ter o tipo de trabalho que deseja ou considera mais adequado para ele, então deve assumir e desempenhar aquilo que aparece. É isso o que ele mais precisa. Também não se pretende que ele o faça apenas para que seja feito. Pretende-se que ele trabalhe como se fosse o objetivo de sua vida, como se todo o seu coração estivesse nisso. Talvez ele seja sábio o suficiente para saber que há algo a mais, ou que o futuro reserva melhores dádivas para ele, ainda assim isso também deve ser esquecido para todos os efeitos, enquanto ele assume seu trabalho, como se não houvesse amanhã.
Lembre-se de que a vida é o resultado do Eterno. Se você chegou a compreender um pouco do mistério da vida e consegue valorizar seus atrativos de acordo com seu valor, não há razões para que você deve avançar com o semblante solene para arruinar as alegrias dos outros homens. A vida para eles é tão real quanto o mistério o é para você. O tempo deles chegará assim como o seu chegou, então apresse-o para eles, se puder, tornando a vida mais brilhante, mais alegre, melhor.
Se for a sua hora de jejuar, vista a melhor roupa que tiver e saia, não como alguém que jejua, mas como alguém que vive para a vida.
Suspire e chore dentro de si mesmo. Se você não consegue acolher os pequenos acontecimentos da vida e seus significados sem clamá-los para o mundo todo, você acredita que é apto para lhe ser confiado os mistérios?
A eliminação de um ou de certos itens da dieta, por si só, não abrirá os portais selados… Se isso contivesse a chave, que seres sábios deveriam ser os animais do campo, e que místico profundo deve ter sido Nabucodonosor, depois de ter sido “expulso para comer capim”!
Há alguns seguidores de uma fé, que cresceu no país, que consideram sensato rejeitar tudo o que lhes é desagradável; romper os laços do matrimônio porque consideram que isso irá interferir no seu desenvolvimento espiritual, ou porque o outro peregrino não é suficientemente evoluído. Irmãos, não existe homem sábio o suficiente para atuar como juiz para julgar o desenvolvimento espiritual de qualquer ser vivo. Não é apenas insensato, mas blasfemo aquele que diz a outro: “Afasta-te! Tu impedes o meu elevado desenvolvimento espiritual”.
“A maior de todas as verdades reside frequentemente à vista de todos, ou velada em contradições. A impressão que se espalhou é que o Adepto ou o Místico de grau elevado só alcançou sua posição abandonando a companhia de seus semelhantes ou recusando os laços do casamento. É crença de Mestres muito sábios que todos os homens que haviam se elevado aos graus mais altos de Iniciação, em algum momento passaram pelo estado civil de casado. Muitos homens, fracassando nas provações, atribuíram seu fracasso ao fato de serem casados, precisamente como aquele outro covarde, Adão, depois de ser o primeiro transgressor, clamou: “Foi Eva”.
“Um dos mais sublime Mistérios Divinos está oculto aqui – portanto, oh Homem, é sábio valorizar aquilo que contém tanto de Deus e procurar saber o seu significado; não pela dissolução e separação, mas pela união e fortalecimento dos laços. Os nossos Mestres mais antigos sabiam disso e Paulo também fala sobre isso. (Efésios v. 32).
Seja paciente, gentil e sábio, pois talvez no próximo instante da vida, a luz brilhará sobre o seu companheiro, e você irá descobrir que não passa de um homem cego, alegando ver. Lembre-se disso, que você não possui nada neste mundo. Sua esposa não passa de um presente, seus filhos são apenas emprestados a você. Todo o mais que você possui é dado a você apenas enquanto você o usa sabiamente. Seu corpo não é seu, pois a Natureza o reivindica como sua propriedade. Você não acha, Oh homem, que é o cúmulo da arrogância julgar qualquer outra coisa criada, enquanto você, um mendigo, anda por aí com uma túnica emprestada.
Se a miséria, a carência e a tristeza forem a sua parte por um tempo, fique feliz por não ser a morte. Se for a morte, fique feliz por não haver mais vida.
Você teria riqueza e falaria do bem que faria com ela. Na verdade, você vai de perder nessas condições. É bem possível que você já seja tão rico quanto jamais será, portanto, deseje fazer o bem com o que tem – e faça-o. Se você não possui nada, saiba que isso é o melhor e o mais sábio para você. Tão certo quanto você murmura e reclama, tão certo você descobrirá que “daquele que nada tem, até o que tem lhe será tirado”. Isso parece contraditório, mas, na realidade, está em harmoniosa concordância. O trabalho na vida e no Ocultismo são semelhantes; tudo é resultado do seu próprio esforço e vontade. Você não é imprudente a ponto de acreditar que será elevado ao Céu como o Profeta da antiguidade – mas realmente espera que alguém apareça e lhe dê um bom empurrão nessa direção.
Saibam, então, discípulos, que somente vocês podem se elevar por seus próprios esforços. Quando isto for feito, vocês poderão ter a certeza de que encontrarão muitos para acompanhá-los em sua jornada até então solitária; mas nem eles nem seu Mestre terão permissão para empurrá-los ou puxá-los um passo adiante.
Tudo isso é uma parte bastante essencial da sua preparação e provação para a Iniciação.
Você olha e espera por algum acontecimento grandioso e surpreendente, para mostra-lhe que será autorizado a entrar atrás do véu; que você será iniciado. Isso nunca acontecerá. Somente aquele que estuda todas as coisas e delas aprende, com elas, à medida que as encontra, será autorizado a entrar, e para ele não há relâmpagos fulgurantes ou trovões estrondosos. Aquele que entra pela porta, o faz de forma tão suave e imperceptível quanto a maré que sobe durante a noite..
Vive bem a sua vida. Procure compreender o significado de cada acontecimento. Esforce-se para encontrar o Eterno Vivo e aguarde mais luz. O Verdadeiro Iniciado não percebe plenamente pelo que ele está passando, até receber sua graduação. Se você está ambicionando luz e Iniciação, lembre-se disso: suas preocupações aumentarão, suas provações se intensificarão, sua família fará novas exigências a você. Aquele que consegue compreender e passar por tudo isso com paciência, sabedoria e serenidade – pode ter esperança.
III
Se você deseja trabalhar pelo bem do mundo, não será sensato tentar incluir tudo de uma vez em seus esforços. Se você puder ajudar a elevar ou ensinar apenas uma Alma – isso já é um bom começo, e mais do que é dado a muitos.
Não tema nada que esteja na Natureza e que seja visível. Não tema nenhuma influência exercida por seita, fé ou sociedade. Absolutamente todas elas se originaram na mesma base – a Verdade ou, pelo menos, uma parte dela. Você não pode presumir que tem uma parte maior do que eles, sendo necessário apenas que encontre toda verdade que cada um possui. Você não está em guerra com ninguém. A paz é o que você procura, por isso, é melhor que o bem em tudo seja encontrado. Porque isso traz paz.
Foi escrito que aquele que vive a Vida conhecerá a doutrina. Poucos são aqueles que entendem o significado da Vida.
Não é filosofando intelectualmente sobre isso, até que a razão deixe de resolver o problema, nem escutando com deleite extático os delírios de um Elemental vestido – cujas alucinações não passam de criações do Astral – que a Vida é compreendida. Nem será realizada pelos relatos da experiência de outros estudantes. Pois há alguns que não compreenderão a própria Verdade Divina, quando escrita, a menos que seja devidamente pontuada ou expressa em palavras fluidas e floreadas.
Lembrem-se disso: à medida que você vive sua vida todos os dias com um propósito elevado e um desejo altruísta, cada evento terá para você um significado profundo – um significado oculto – e, à medida que você aprende sua importância, você se torna apto para um trabalho mais elevado.
Não há roseirais pelo caminho para se perambular, nem escravos bajuladores para abanar alguém com bastões dourados de plumas de avestruz. A Luz Inefável não irá se derramar sobre você toda vez que você pensar que acelerou o passo, nem você se encontrará navegando por aí em um corpo astral, para deleite seu e espanto do resto do mundo, simplesmente porque está fazendo o esforço para encontrar a sabedoria.
Aquele que está preso de alguma forma – aquele que é limitado em seus pensamentos – acha duas vezes mais difícil seguir adiante. Você pode igualmente conseguir sabedoria e luz em uma igreja como sentando-se em um poste na espera dolorosa de que as coisas aconteçam. Não é indo a extremos ou se tornando fanático em qualquer sentido que a Vida será compreendida.
Seja comedido em todas as coisas, principalmente na condenação dos outros. É insensato ser intemperado ou embriagado com vinho. É igualmente insensato estar embriagado com temperança. Os homens ganhariam os poderes; ou a forma de realizar maravilhas. Você sabe, ó homem, quais são os poderes do místico? Você sabe que para cada dom deste tipo ele dá uma parte de si mesmo? Que é somente com angústia mental, tristeza terrena e quase o sangue do seu coração que esses dons são conquistados? Você pensa, meu irmão, que é verdade que aquele que realmente os possui deseja vendê-los por um dólar a espiada, ou a qualquer outro preço? Aquele que negociaria fosse negociar essas coisas se encontra mais longe de seu objetivo do que quando nasceu.
Há dons e poderes. Talvez não apenas aqueles que você criou em sua imaginação. Ouça de um desses poderes: Aquele que avançou até certo ponto, descobre que os corações dos homens estão escancarados diante dele como um livro aberto, e a partir daí os motivos dos homens são claros. Em outras palavras, ele consegue ler os corações dos homens. Mas não de forma egoísta; se ele fosse apenas uma vez usar esse conhecimento de forma egoísta, o livro se fecha – e ele não lê mais. Pensam vocês, meus irmãos, que ele se permitiria vender uma página deste livro?
Tempo – aquilo que não existe fora do círculo interno deste pequeno mundo – parece de grande importância para o homem físico. Às vezes, vem a ele o pensamento de que não está fazendo nenhum progresso e de que não está recebendo nada de alguma fonte mística. Pelo fato de ele ter o pensamento de que nenhum progresso está sendo feito, obtém-se a evidência de que ele está progredindo. Somente os mortos em corpos vivos precisam temer. Aquilo que os homens receberiam de fontes místicas é repetido com frequência, e em uma voz tão tranquila e discreta, que aquele que aguarda ouvi-lo gritado em seu ouvido está propenso a passar despercebido.
Não compele ninguém a ver como você, pois é bem possível que você veja de forma diferente ao acordar de manhã. É mais sábio deixar o assunto ficar sem discussão. Nenhum homem está absolutamente convencido disso. É apenas soprar seu alento contra o turbilhão.
Uma vez foi escrito acima da porta: “Abandonem a esperança, todos vocês que aqui entrarem.” Levou centenas de anos para que alguns chegassem à conclusão de que os sábios não tinham o menor desejo pela companhia de um monte de incuráveis desesperados nos mistérios. Deve-se abandonar a esperança de gratificação de nossas paixões, nossas curiosidades, nossa ambição ou desejo de ganho. Há também outra Esperança – a verdadeira; e é um homem sábio aquele que chega ao conhecimento dela. Irmã da Paciência, juntas são as Madrinhas do Viver Correto, e duas das dez que assistem ao Mestre.
MÍSTICO AMERICANO
“Path”,
Agosto, 1886
Outubro, 1886
Fevereiro, 1887