Teosofia sobre o Islamismo-Blavatskytheosophy
A Teosofia fala muito sobre o islamismo, os muçulmanos ou o Profeta Muhammad (Maomé)?
Os ensinamentos e a literatura teosófica não mencionam estes assuntos com muita frequência. As poucas referências são uma mistura de afirmações e observações positivas e negativas.
Por exemplo, na página 120 de “O Oceano da Teosofia“, no capítulo intitulado “Ciclos”, William Q. Judge descreve Maomé como um Avatar; “um intermediário menor, para uma determinada parte da Raça, e que foi civil, militar e religioso”.
Ser um Avatar, mesmo que menor, não é um feito pequeno (clique aqui [em inglês] para explorar a explicação teosófica sobre o que é efetivamente um Avatar) e, portanto, só podemos concluir que deve ter havido de fato algo de especial nessa Alma. Assim como aconteceu com outros que se tornaram conhecidos como fundadores de religiões – e cujas intenções eram, muitas vezes, reformar os sistemas existentes em vez de estabelecer algo novo – pode muito bem ter havido uma grande diferença entre o islamismo de Maomé e o islamismo de seus seguidores e devotos posteriores.
Em seu primeiro livro, H.P. Blavatsky declara que “Nunca houve uma religião nos anais do mundo com um registro tão sangrento quanto o cristianismo. Todas as outras, incluindo as tradicionais lutas ferozes do “povo eleito” com seus parentes mais próximos, as tribos idólatras de Israel, empalidecem diante do fanatismo assassino dos supostos seguidores de Cristo! Até mesmo a rápida disseminação do maometismo, ante a espada conquistadora do profeta islâmico, é uma consequência direta dos tumultos e brigas sangrentas entre os cristãos. Foi a guerra intestina entre os nestorianos e os cirílicos que gerou o islamismo; e foi no convento de Bozrah que a prolífica semente foi plantada pela primeira vez por Bahira, o monge nestoriano. Livremente regada por rios de sangue, a árvore de Meca cresceu até que, no século atual, a encontramos ensombrando quase duzentos milhões de pessoas”. (“Isis Unveiled” Vol. 2, págs. 53-54)
Bahira, também conhecido como “Sérgio, o Monge”, era um monge cristão sírio que encontrou o menino Maomé um dia, quando este passava por Bozrah com seu tio. Diz-se que Bahira teve uma visão ou revelação do futuro do menino como profeta e que compartilhou isso com o menino e seu tio, advertindo-o tio para que protegesse seu sobrinho e o mantivesse a salvo, à luz de seu destino e de sua missão. É interessante notar que, em seus primeiros anos, o islamismo Islã era frequentemente visto e referido como uma heresia cristã e visto como uma espécie de facção renegada do cristianismo do Oriente Médio. Certos aspectos de sua teologia se assemelhavam muito à visão cristã nestoriana das coisas.
Na citação acima, HPB não se mostra muito positiva sobre a fundação do islamismo nem sobre a própria religião! Na Introdução de “A Doutrina Secreta” (Vol. 1, pág. xli) ela prossegue dizendo:
“Em verdade, os espíritos demoníacos do fanatismo, do cristianismo primitivo e medieval e do islamismo, desde o início adoraram habitar na escuridão e na ignorância; e ambos fizeram
” – o Sol como sangue, a Terra como um túmulo,
“O túmulo é um inferno, e o próprio inferno é uma escuridão mais sombria!”
“Ambos os credos ganharam seus prosélitos na ponta da espada; ambos construíram suas igrejas sobre hecatombes de vítimas humanas, tão altas que tocam o céu“.
Seu artigo inicial “O Akhund de Swat” (“Um Panarion Moderno“, págs. 179-183) contém a frase “aqueles gêmeos inimigos da verdade – o cristianismo e o islamismo”.
Entretanto, se recorrermos ao seu verbete “Alcorão” no “Glossário Teosófico“, veremos que ela diz que “Os cristãos denigrem o Alcorão, chamando-o de alucinação e obra de um impostor árabe. Ao contrário, Maomé prega em suas Escrituras a unidade da Deidade e presta honras ao profeta cristão “Issa Ben Yussuf” (Jesus, filho de José). O Alcorão é um poema grandioso, repleto de ensinamentos éticos proclamando em voz alta a Fé, a Esperança e a Caridade”.
Portanto, como sugerimos anteriormente – pode muito bem ter havido uma grande diferença entre o islamismo de Maomé e o islamismo de seus seguidores e devotos posteriores.
William Judge escreveu um pequeno artigo intitulado “Sobre o Islamismo” (hoje em dia “islamismo” é o termo para o Islã fundamentalista extremista, enquanto naquela época era meramente sinônimo do próprio “Islã”), no qual ele comenta que “os sufis realmente preservam as doutrinas ocultas do Islã” e acrescenta:
“A seguinte concepção proeminente mantida pelos ocidentais sobre os maometanos é que eles forçaram uma aceitação de suas doutrinas. Temos histórias tais como a de que eles carregavam uma espada em uma mão e o Alcorão na outra, obrigando as pessoas a aceitarem o livro sob a ameaça da espada; que eles queimavam livros que continham assuntos diferentes dos contidos no Alcorão, sob o argumento de que, se estavam no Alcorão, os livros eram desnecessários, e, se não estavam no Alcorão, os livros estavam errados e deveriam ser queimados. Mas os discípulos do Profeta afirmam que ele nunca ensinou tal coisa e apontam para o grande conhecimento dos maometanos no passado. Sem dúvida, estes discípulos têm razão, mas sabemos que muitos maometanos tentaram coagir as pessoas e que existe algum fundamento para a história com relação à destruição daquilo que não era encontrado no Alcorão. Por estas razões, o Ocidente tem se oposto ao islamismo sem realmente saber muito sobre ele. A religião tem sido julgada pelos procedimentos de seus seguidores. Acusações semelhantes poderiam ser feitas contra os povos cristãos que, notoriamente, tanto individualmente quanto como nações, têm o hábito de ir diretamente na contramão dos mandamentos de seu Fundador …
“A religião do Profeta contém, em comum com todas as outras religiões, uma doutrina secreta que é a mesma encontrada naquelas com nomes diferentes. Como mencionado acima, os sufis ensinavam um tipo muito elevado de misticismo, mas não superior ao dos hindus, nem diferente do misticismo dos cristãos, tanto dos tempos iniciais quanto dos posteriores. … como sabemos pouco sobre o verdadeiro islamismo, uma análise cuidadosa sobre ele sem dúvida acrescentará ao nosso conhecimento e ampliará nossas concepções, uma vez que deve acabar nos levando a ver mais uma vez que nenhuma das religiões atuais é verdadeira, mas que um único corpo de verdade subjacente a todas elas deve ser a religião do futuro”. (este artigo [em inglês] está em “William Q. Judge Theosophical Articles” Vol. 1).
Sunita e xiita são as duas formas mais conhecidas do islamismo. O sufismo, também conhecido como tasawwuf, o lado e sistema mais místico da religião muçulmana, é encontrado principalmente no sunita, embora em menor medida no xiita. No mundo não islâmico, o sufismo é muitas vezes erroneamente considerado como uma seita em si ou uma ramificação distinta e separada do islamismo, embora não a seja. Os sufis, diz HPB, “reivindicam, e com razão, a posse da filosofia esotérica e da doutrina do verdadeiro maometismo”. A doutrina Sufi (ou Sofi) é muito próxima da Teosofia, na medida em que prega um credo universal e evidente respeito e tolerância para com toda fé popular exotérica. Ela também tem contato com a maçonaria. Os sufis têm quatro graus e quatro estágios de iniciação: 1º, estágio probatório, com estrita observância externa dos ritos muçulmanos, sendo explicado ao candidato o significado oculto de cada cerimônia e dogma; 2º, treinamento metafísico; 3º, o grau de “Sabedoria”, quando o candidato é iniciado na natureza mais oculta das coisas; e 4º, a Verdade final, quando o Adepto atinge poderes divinos, e união completa com a Deidade Universal Una em êxtase ou Samadhi”. (“O Glossário Teosófico” pág. 311, Verbete para “Sufismo”)
É bem conhecido que a HPB fez referências relativamente frequentes ao antigo esoterismo caldeu, em especial a um texto secreto ao qual ela se refere como o “Livro Caldeu dos Números” e que é citado várias vezes em sua obra-prima “A Doutrina Secreta“. O que talvez seja menos conhecido, exceto para estudantes sérios de “A Doutrina Secreta“, é que “as obras caldeias … estão traduzidas para o árabe e preservadas por alguns iniciados sufis”. (“A Doutrina Secreta“, Vol. 1, pág. 288)
A personalidade sufi mais conhecida atualmente é, obviamente, Jalaluddin Rumi, também conhecido como Jalāl al-Dīn Rumi (1207-1273), que, como a maioria dos sufis, era sunita. Rumi só se tornou popular e bem conhecido no Ocidente nas últimas décadas e não foi mencionado por H. P. Blavatsky e seus colegas. Um artigo conciso e inspirador sobre Rumi foi publicado no final do século XX em “Hermes”, uma revista produzida pela Loja de Santa Barbara da Loja Unida de Teosofistas. Ele pode ser lido aqui [em inglês]. O editor da “Hermes”, Raghavan Iyer, também incluiu alguns dos poemas de Rumi, juntamente com os de outros sufis, como Ibn al-ʿArabī e Jami, em sua antologia “The Jewel in The Lotus“, que foi apropriadamente descrita como “uma Bíblia Universal”.
Os misteriosos drusos do Líbano e da Síria também têm uma ligação com o lado esotérico do Islã, mas são um grupo religioso distinto, de natureza e doutrina mais profundas e abertamente metafísicas e ocultas do que os sufis. Vale a pena ler o artigo de HPB “Lamas and Drusos” [em inglês] a esse respeito. Ele pode ser encontrado no terceiro volume de “H.P. Blavatsky Theosophical Articles“.
Os leitores são convidados a explorar e estudar o Islã por si mesmos e, tendo estas referências teosóficas em mente, tirar suas próprias conclusões sobre a religião, seu fundador, suas escrituras e a natureza e o valor de ambos os seus lados, exotérico e esotérico.
São mais as formas exotéricas mais extremistas do Islã que representam uma séria ameaça no mundo de hoje, em vários níveis diferentes. Talvez prevendo o estado das coisas no século 21, HPB observou uma vez que “a Europa ainda pode acordar um dia e se encontrar muçulmana”. (“Nosso Ciclo e o Próximo“, em “H.P. Blavatsky Theosophical Articles” Vol. 1. Quando ela escreveu essas palavras, tal ideia teria parecido absurda para a maioria e extremamente improvável. Hoje ela soa muito verdadeira e representa uma preocupação crescente e legítima de muitos no Ocidente.
Mas…
“Seja como for, a religião dos antigos é a religião do futuro”. Mais alguns séculos e não haverá mais crenças sectárias em nenhuma das grandes religiões da humanidade”. O bramanismo e o budismo, o cristianismo e o maometismo desaparecerão diante do poderoso avanço dos fatos“. (H.P. Blavatsky, “Isis Unveiled” Vol. 1, pág. 613)
Artigos recomendados:
O coração do Sufismo [em inglês], Rumi sobre o progresso e a evolução incessantes [em inglês].
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