Sobre o Futuro: algumas reflexões-W.Q. Judge
Apesar de ser um cidadão americano, o lugar onde nasci foi na Irlanda, e pelo que vou dizer, não posso ser acusado de “Columbia mania”, pois por mais longa que seja a minha vida, nunca poderei ser um americano. Para isso, já que é compulsório, talvez seja apropriado esperar por alguma encarnação longínqua.
Agora, ou H.P.B. estava certa ou estava errada no que diz em “A Doutrina Secreta” sobre o futuro da América. Se estiver errada, tudo isso pode ser descartado como mera especulação. Mas, se estiver certa, então todos os teosofistas criteriosos devem prestar atenção, ponderar bem, ser mentalmente pertinentes e sempre lembrar quais são as palavras dela, bem como as conclusões às quais elas levam.
Nas primeiras páginas do segundo volume, ela menciona cinco grandes Continentes. Primeiro, a Imperecível Terra Sagrada [que fica no Polo Norte, W.Q.J.]; segundo, o Hiperbóreo, atualmente parte dele está no norte da Ásia; terceiro, a Lemúria, afundada há muito tempo, mas deixando alguns restos, ilhas, os cumes de altas cadeias de montanhas; quarto, Atlântida, presumivelmente no Oceano Atlântico, agora abaixo do nível da água, mas talvez com Tenerife e Atlas como lembretes; e quinto,” a América.
A partir de ima pesquisa do livro, vasculhando as notas e extraindo do texto aqui e ali, a conclusão forçosa é que, embora a América atual não seja o continente real como deverá ser, ela é uma parte dele; e certamente é agora o berçário para a Raça que no futuro ocupará o sexto continente, o qual emergirá das águas para a sexta Grande Raça Raíz. Onde? Talvez quando a América atual tiver sido dividida por enormes cataclismos, deixando aqui e ali grandes pedaços em seu lado ocidental, será no Oceano Pacífico que a grande massa do novo continente emergirá do longo sono debaixo do mar. Então, corretamente, o grande oceano do extremo oeste terá sido chamado de Pacífico, porque aquela Raça não será propensa a disputas, nem ouvirá falar de guerras ou rumores de guerra, uma vez que estará demasiado perto da sétima, cuja missão deve ser alcançar a realização, apreender e manter o Santo Graal.
Vá até a página 444 e avance para o segundo volume. Leia ali que os americanos se tornaram, em apenas trezentos anos, uma raça primordial pro tempore, em suma, os germes da sexta sub-Raça, para desabrochar em mais alguns séculos, nos pioneiros daquela que deve suceder à atual quinta sub-Raça europeia em todas as suas características. Então, depois de cerca de 25.000 anos, o que você notará que se refere a um grande ciclo sideral de um pouco mais de um ano, essa nova Raça se preparará para a sétima sub-Raça. Cataclismos cairão sobre vocês; terras e nações serão varridas, sendo as primeiras delas as europeias, incluindo as Ilhas Britânicas – se não o forem antes – e depois partes tanto da América do Norte quanto da América do Sul. E quão insignificantes e misturados, de fato, serão os vestígios dos cientistas de hoje, grandes mestres dos micróbios agora, mas que então serão vistos como estranhos resquícios do século dezenove, quando, como as pessoas dirão umas às outras, muitos, com a Verdade diante de si, riram dela e apedrejaram seus apóstolos, dançando enquanto isso uma dança fantástica em torno do altar da matéria invisível.
Parece que algum poder, planejando deliberadamente, selecionou as Américas do Norte e do Sul como o local onde uma nova Raça Raiz primária deveria ser iniciada. Esses dois continentes foram, evidentemente, sedes de raças antigas e não o habitat de homens selvagens e não desenvolvidos. O homem vermelho do continente do norte tem toda a aparência e as crenças de uma raça outrora grande. Ele acredita em um único Deus, um Devachan de caça feliz após a morte. Algumas tribos têm diagramas de como o mundo foi formado e povoado, que estranhamente se assemelham à cosmogonia hindu, e seu folclore tem marcas profundas de ter vindo de uma época mais antiga e melhor. Seguindo o curso da exploração em direção ao sul, encontramos evidências acumuladas por todo o caminho de uma civilização anterior que agora se foi com a onda cíclica que a trouxe. A América Central está repleta de vestígios em pedra e tijolo e, assim por diante; rumo ao sul, ainda descobrimos provas semelhantes. Com o passar do tempo, esses continentes se tornaram o que poderia ser chamado de terra arável, aguardando, recuperando-se, até que os fluxos europeias de homens começaram a se derramar sobre eles. Os espanhóis inundaram a América do Sul e colonizaram a Califórnia e o México; os ingleses, franceses e espanhóis tomaram o norte e, mais tarde, vieram todas as nações, de modo que agora, em ambos os continentes, quase todas as raças estão misturadas e continuam se misturando. Os chineses até se casaram com mulheres de sangue europeu; os hindus também estão aqui; a antiga raça persa tem seus representantes; os espanhóis se misturaram com os aborígenes e os donos de escravos com os africanos. Não tenho dúvida de que algum representantes de todas as raças conhecidas esteve aqui e deixou, nos últimos duzentos anos, alguma impressão através da mistura de sangue.
Mas os últimos remanescentes do quinto continente, a América, não desaparecerão até que a nova Raça tenha nascido há algum tempo.
Então, uma nova morada, o sexto continente, terá surgido sobre as águas para receber os jovens que se elevarão acima nós, assim como nós nos elevamos acima dos pigmeus da África. Mas não existirá a América como a conhecemos hoje. No entanto, esses homens têm de ser os descendentes da Raça que está surgindo agora aqui. De outra forma, a nossa filosofia está totalmente errada. Então, na América está se formando agora a nova Sub-Raça, e nesta terra foi fundada a atual Sociedade Teosófica: dois assuntos de grande importância.
Note que foi nos Estados Unidos que a mensageira dos Mestres veio, embora a Europa fosse igualmente acessível para o empreendimento principiado. Mais tarde, essa mensageira foi para a Índia e depois para a Europa, estabelecendo-se nas Ilhas Britânicas. Tudo isso é importante em nossas reflexões. Por que ela inicia o Movimento primeiramente na América, e por que termina sua parte dele na Inglaterra? Poderíamos ser levados a perguntar por que não foi feito um esforço a todo custo para dar o último impulso externo na terra promissora, onde ela começou o trabalho?
Não imaginem nem por um instante, ó meus irmãos ingleses, que Londres foi escolhida para isso porque as belezas de sua ilha a atraíram, ou porque ela tinha decidido no final que, no fim das contas, havia sido cometido um erro ao não ir lá primeiro. Foi tudo feito por absoluta necessidade, com uma sabedoria proveniente de muitas cabeças mais experientes, tendo em vistas os ciclos que avançavam irresistivelmente. O ponto em que a grande energia começa, o centro de força, é o mais importante, e não o lugar onde ela termina. E isso continua sendo verdadeiro, não importa o quão essencial o local de término possa ser no esquema. Como, você acha que a Índia não é tão importante? E será que aquela terra não teria, ao que tudo indica, oferecido um lugar melhor do que qualquer outro para o início da magnum opus? Os Adeptos não cometem erros do gênero.
A descoberta da América é atribuída a Cristóvão Colombo. Embora haja dúvidas, ainda assim ninguém duvida que foi o povo espanhol o que mais contribuiu no início para povoá-la, ao mesmo tempo em que elimina algum antigo e cria novo Carma, matando muitos dos indígenas. É assim é que povos condenados se precipitam para sua perdição, da mesma forma que as tropas de insetos, animais e homens foram vistos por Arjuna se precipitando para as bocas flamejantes de Krishna. Mais tarde, porém, veio a robusta linhagem da Inglaterra, a qual, na maior nação, a mais persistente deste continente, deixou sua impressão indelével no povo, em suas leis, em sua constituição, em seus costumes, em sua literatura e em seu idioma. Talvez a Inglaterra e a Irlanda sejam as portas de entrada para os Egos que encarnam aqui no trabalho silencioso de formar uma nova Raça. Talvez haja algum significado no fato de que mais linhas de navios a vapor transportando carga humana venham da Inglaterra para os Estados Unidos, passando pela Irlanda no caminho como a última terra vista do velho mundo, do que de qualquer outro lugar. Os feitos dos homens, os empreendimentos dos comerciantes e as guerras dos soldados seguem implicitamente uma lei que está fixada nas estrelas e, embora copiem o passado, sempre simbolizam o futuro.
Será que H.P.B. estava apenas brincando quando escreveu em seu livro que a Irlanda é um antigo remanescente atlante, e a Inglaterra uma ilha mais jovem, cuja elevação do mar foi observada por sábios da costa de Erin? Talvez o povo daquela antiga terra possa ter uma influência importante na nova Raça da América. Ao que parece pela comparação, parece que eles podem ter tido, e provavelmente terão no futuro. Talvez, politicamente, já que muitos esperam distúrbios sociais na América. Nesse caso, qualquer estudante de caráter admitirá que os irlandeses, ignorantes ou não, defenderão a lei e a ordem – pois seus filhos não estão lutando aqui contra um inimigo antigo. Por que, também, por uma estranha aberração do destino, a grande pedra do destino na Abadia de Westminster está fixada sob o trono da coroação no qual a Rainha foi coroada? Vamos também nos informar se há algum indício apontando para o futuro no fato de que a Rainha da Inglaterra, coroada sobre aquela pedra (1), é Imperatriz da Índia, de onde afirmamos que os arianos vieram e onde seu glorioso conhecimento, há muito esquecido, está preservado? Seu nome é Victoria. É a vitória para “a nova ordem das Eras”; e essa nova ordem começou na América, seu advento foi notado e gravado no lado anverso, ainda não utilizado, do atual selo do governo dos Estados Unidos. Uma vitória na união dos Egos do Oriente e do Ocidente; pois a Inglaterra estende uma mão para o lar da nova Raça, que ela nunca poderá possuir, e com a outra mão governa a Índia, completando o circuito. Pode ser uma imagem fugaz, que talvez seja apagada por um tempo em um rio de sangue, mas é assim que os ciclos se desenrolam e como podemos aprender a ler o futuro. Pois o destino da Inglaterra não está completo, nem chegou a hora. Nenhum de nós abraça ilusões tolas por muito tempo, e mesmo que a Irlanda já tenha sido um lugar muito sagrado, não é motivo para querermos ir para lá. Pois na América, aqueles cujo Carma os conduziu até lá trabalharão pela mesma finalidade e pela mesma fraternidade que os outros que ficaram na Índia e na Europa. O idioma e o estilo de pensamento dominantes na América é o inglês, embora esteja se transformando a cada dia. É lá que o trabalho continua silenciosamente; para lá foram pais e mães europeus, estabelecendo correntes de atração que inevitavelmente e incessantemente atrairão para a reencarnação Egos semelhantes a eles. E a grande corrida para frente e para trás é completada pelos Egos atrasados à medida que morrem em outras nações, encarnando, enquanto isso, novamente entre as raças mais antigas deixadas para trás.
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Pelo menos esse parecia ser o panorama enquanto as nuvens se dissipavam – e então, mais uma vez, houve silêncio.
(1) É um fato interessante que na Índia há uma importante cerimônia chamada “montar a pedra”.
William Q. Judge
Lúcifer, março de 1892